segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

valerian 2

Nesse segundo volume das aventuras de Valerian e Laureline encontramos três histórias que são mesmo fruto dos anos 1970. Nelas são discutidos temas caros àquela época, assuntos polêmicos que começaram a ser debatidos também pelo grande público, como o de cuidado com meio ambiente, a busca por fontes alternativas de energia, a igualdade de gênero, as relações entre ideologia e poder, o caminho dos excessos com drogas ilícitas. Pierre Christin e Jean-Claude Mézières desenvolvem três histórias curiosas, que se não são tão contundentes quanto as três iniciais (volume #1) tem lá seu valor. Em "O país sem estrela", de 1972, somos apresentados a Ukbar, um bizarro mundo dividido entre homens e mulheres, habitantes de duas cidades-estado, nas quais os líderes escravizam sempre o gênero oposto e fazem uso de uma mesma fonte de energia em suas seculares contendas e guerras. Uma das funções de Velerian e Laureline, como agentes do Império Terrestre, é garantir o fluxo contínuo de matérias primas para Galaxity, sua capital. Para alcançar esse objetivo eles intervêm na disputa entre os dois povos. Em "Bem-vindos a Alflolol", também de 1972, repete o tema de exploração dos recursos naturais de um planeta. Valerian e Laulerine tomam partido dos habitantes de Alflolol, um povo alegre e nômade, que nem tinham ciência que seu planeta natal estava sendo explorado pelos terráqueos, pois suas viagens de férias duravam quatro séculos. Em "Os pássaros do mestre", de 1973, o tom é mais sombrio. Mézières e Christin provocam reflexões sobre a manipulação religiosa e política que populações inteiras podem experimentar, tornando-se escravos de um "guia genial", de um "mestre". Valerian e Laulerine ajudam a população a organizar uma resistência, uma revolta contra essa sociedade opressiva, libertando-os. Mesmo quando aborda temas complexos o tom é sempre bem humorado, de tal forma que são sutis, porém efetivas, a crítica social, a análise política e as reflexões sociológicas. As ilustrações são poderosas, monumentais. Assim como no volume anterior, neste encontramos uma entrevista recente com os autores, uma curta biografia deles e um posfácio onde se conta algo sobre a influência de Mézières e Christin nas gerações seguintes de cartunistas franceses. Vamos a ver se o SESI-SP continuará a produzir esses volumes (a produção completa em francês envolve mais de vinte álbuns). Logo veremos. Vale! 
Registro #1258 (hq's, cartuns e mangás #68)
[início: 25/10/2017 - fim: 22/11/2017]
"Valerian Integral (volume #2)", Pierre Christin, Jean-Claude Mézières, cores de Évelyne Tranlé, tradução de Fernando Paz, São Paulo: SESI-SP editora, 1a. edição (2017), brochura 22,5x29 cm., 172 págs., ISBN: 978-85-504-0413-64[edição original: Valérian Intégrale - tome 2 (Paris: Dargaud) 1973]

domingo, 28 de janeiro de 2018

a cidade de ulisses

Teolinda Gersão apresenta em "A cidade de Ulisses" uma história curiosa, que fala do amor, do companheirismo, da amizade e da cumplicidade que por vezes, mas não com frequência e certamente não para sempre, só por algum tempo, um casal pode alcançar. Para contar essa história de amor Teolinda canta a história de Ulisses e a história de Lisboa, as errâncias da vida de um sujeito (Pedro Vaz, o protagonista de sua história) se confundem com as errâncias de Ulisses em sua odisseia, de sua volta à Ítaca. O livro trata dos caminhos serpeantes de nossas vidas, das escolhas, azares, sucessos, das surpresas, boas e más, de como associamos nossa vida às cidades em  que vivemos, como se essas cidades fossem indivíduos, não lugares. Pedro Vaz, artista plástico respeitado, é convidado para produzir algo sobre Lisboa para uma exposição. Ao pensar em sua proposta ele lembra de um antigo projeto, que foi engendrado há muitos anos, nos tempos em que vivia com Cecília Branco, como ele, também uma artista plástica promissora. A partir desse ponto a narrativa se desdobra em reflexões muito interessantes sobre a história portuguesa, desde as variadas mitologias de sua fundação até as circunstâncias do refluxo migratório das pessoas que nasceram em países anteriormente colonizados por Portugal, de sua presença periférica na comunidade europeia. Narra-se também algo das biografias de Pedro e Cecília (que na prática funciona como um registro panorâmico sobre da sociedade portuguesa do último quarto do século passado). Fala-se das circunstâncias do encontro e separação entre eles; da contínua educação sentimental que experimentamos ao longo da vida; de como, nas separações, de alguma forma é necessário um fechamento adequado, após o quase luto da perda e do rancor. Belo livro. Vou procurar algo mais dessa curiosa e respeitadíssima escritora (que já havia sido indicada por um amigo de longe, lá do Porto, mas, ai de mim, de quem esqueci-me completamente até ver o livro com o nome dela exposto). Vale! 
Registro #1257 (romance #332)
[início: 13/01/2018 - fim: 20/01/2018]
"A cidade de Ulisses", Teolinda Gersão, Rio de Janeiro: Editora Oficina Raquel, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 254 págs., ISBN: 978-85-9500-011-7 [edição original: A cidade de Ulisses (Porto: Sextante Editora) 2011]

sábado, 27 de janeiro de 2018

Placas tectônicas

Gostei muito de "Placas tectônicas", graphic novel explicitamente autobiográfica de Margaux Motin, desenhista e quadrinista francesa, publicado originalmente em 2013. Se ler o livro foi divertido, escrever sobre ele envolve algum cuidado, afinal estamos em tempos "politicamente corretos" e da vulgaridade dos "lugares da fala": pode um homem escrever sobre um livro que fala sobretudo da psiquê feminina? (claro que pode, mas há hordas de mal humorados que diriam que não). O livro é um conto de fadas contemporâneo, um livro divertido, que usa o humor e a sensibilidade para falar de questões de nosso cotidiano, ou seja, de separação e perda, das dificuldades de conciliar trabalho e o especial ofício de ser mãe, das formas de explorar a sexualidade e capacidade de amar, dos sonhos e da realidade da vida, de como conhecer o próprio corpo e seus limites, de como conviver com quem partilhamos coisas em comum e com gente que detestamos por princípio. O traço de Motin é limpo, bonito mesmo de se ver, muito colorido e com boas invenções gráficas. O roteiro/texto vai do sarcasmo ao mais franco humor. As ilustrações incluem também alguns registros fotográficos que passaram por intervenção gráfica. Esses registros funcionam como um desvio poético, um descanso da tensão acumulado que por vezes alcança a narrativa. Bacana. Ela é hiperativa, vale a pena acompanhar seu blog no typepad (há coisas desde 2008). Vale! 
Registro #1256 (graphic novel #67)
[início: 07/01/2018 - fim: 11/01/2018]
"Placas tectônicas", Margaux Motin, tradução de Fernando Scheibe, São Paulo: Editora Nemo (Grupo Autêntica), 1a. edição (2016), brochura 17x24 cm., 2564 págs., ISBN: 978-85-8286-284-1 [edição original: La Tectonique des Plaques (Paris: Éditions Delcourt) 2013]

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

um amor incômodo

Nos meses em que me dedicava a ler a tetralogia napolitana de Elena Ferrante ("A amiga genial", "História do novo sobrenome", "História de quem foge e de quem fica" e "História da menina perdida"), comprei também outros livros dela, mas com os aborrecimentos do ano passado os esqueci em algum canto. Recentemente, no início desse 2018, os reencontrei. "Um amor incômodo" foi o livro de estreia de Ferrante, lançado em 1992 e ganhou imediata boa recepção (somada a curiosidade sobre a identidade sempre velada da autora). Trata-se de uma história muito especial, sofisticada e tocante, ao mesmo tempo cruel, trágica (na medida em que qualquer aventura humana tem sua cota de comédia e tragédia, de alegrias e descontentamentos). Assim como a protagonista da história o leitor acaba por refletir muito sobre si e suas próprias escolhas, conduzido pela trama. Imaginação e memória, velhas irmãs siamesas, parecem se fundir na narrativa. Delia, uma ilustradora de livros infantis de quarenta e poucos anos, conta algo dos desdobramentos da morte de sua mãe, Amália, que afogou-se quando estava em trânsito, com o objetivo de visitá-la (a mãe vivia no sul italiano, Délia em Roma). Ela refaz e tenta descobrir algo sobre os últimos dias da mãe, como se fosse a detetive de um romance policial, mas também se descobre, rememora sua história de família, à medida que uma série de epifanias se acumulam. Cada vez que conto algo da trama do livro para alguém enfatizo um aspecto diferente: ou os momentos que lembram os afloramentos de memória involuntária proustiana, ou os momentos chave da infância e da vida familiar psicologicamente sublimados, ou o registro dos diferentes estados emocionais por meio da linguagem, dos dialetos. Enquanto lia o livro lembrava-me ora em como Ferrante explora a experiência do sonho, similar a de Arthur Schnitzler, ora em como, à exemplo de Proust, naquela cena memorável na biblioteca da Princesa de Guermantes, faz sua protagonista experimentar uma cascata de associações e lembranças, que a intoxicam. Livro muito interessante. Vamos a ver se um dia reencontro a quase vovó Cíntia Pasa e, como fizemos com os volumes da tetralogia, conversamos também sobre esse "Um amor incômodo". Vale! 
Registro #1255 (romance #331)
[início: 03/01/2018 - fim: 04/01/2018]
"Um amor incômodo)", Elena Ferrante, tradução de Marcelo Lino, Rio de Janeiro: Editora Intrínsica, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 174 págs., ISBN: 978-85-510-0137-0 [edição original: L'amore molesto (Roma: Edizioni e/o) 1992]

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

remédios mortais

Em "Remédios mortais", oitavo romance da série de volumes dedicados aos sucessos do detetive Guido Brunetti, Donna Leon nos apresenta uma questão sobretudo moral. A exemplo dos volumes anteriores a trama é bem organizada; as digressões pela alta cultura interessantes; os personagens, complexos; os desdobramentos do crime, críveis; a ilusão da presença física de Veneza em nossa imaginação, notável. Paola decide seguir seu instinto e cometer um crime menor para combater a sua maneira um crime maior. Mas os cidadãos podem fazer escolhas assim, agir segundo seus particulares critérios morais? Os mitos gregos voltam a povoar magistralmente a narrativa de Donna Leon. As regras de convivência entre mulheres e homens quando casados ou vivendo juntos ganham relevo, conduzem a trama mais mundana, rasa, dos crimes que são investigados. Trata-se de um volume calmo, camerístico, de sombras que se acumulam. Os sucessos acontecem no início de novembro, faz frio, a celebração do dia de finados contamina os humores dos protagonistas. Brunetti sonha com a possibilidade dos livros o levarem para longe dos problemas, mantê-lo afastado do sentimentalismo barato  do final de século, da alucinação do milenarismo. Pobre Brunetti, não sabe que quase vinte anos se passaram desde o início de um novo século, e os problemas continuam exatamente os mesmos, tanto em seu país quanto no mundo, somente ganharam novas roupagens, novos atores, nova cenografia. Envelhecer, ele bem sabe, é um exercício de resignação, de estoicismo. Vale! 
Registro #1254 (romance policial #68)
[início: 02/11/2017 - fim: 03/11/2017]
"Remédios mortais (Brunetti #8)", Donna Leon, tradução de Carlos Alberto Bárbaro, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2012), brochura 12x18 cm., 258 págs., ISBN: 978-85-359-2188-5 [edição original: Fatal remedies (London: William Heinemann / Penguin Randon House Group) 1999]

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

roupas sujas

Leonardo Brasiliense é um sujeito que conhece bem seu ofício e não repete fórmulas que já deram certo. Já publicou novelas curtas, contos, histórias dirigidas ao público infantojuvenil, mini-contos. Cada novo livro dele oferece ao leitor algo que realmente surpreende. Neste "Roupas sujas" encontramos uma história compacta, que alcança fixar em tons quase líricos algo de terrível, triste, de vidas que parecem já fadadas à destruição, maculadas de tal forma que punições e tragédias serão repartidas por todos os descendentes de alguém que comete um ato vil (os ecos gregos dessa história são sutis, porém inequívocos). A trama se passa no interior do Rio Grande do Sul, na segunda metade do século passado. A morte de uma mulher ao dar a luz de seu filho caçula, Pedro, provoca rearranjos na estrutura familiar de um grupo de agricultores bastante modestos, que passam por dificuldades e contam com o clima e a sorte para prosperar. Os sete filhos órfãos (de Geni, já com vinte anos anos, a Antônio, com oito) assumem responsabilidades que estão acima de suas capacidades, todos se esforçam para fugir de um modo de vida estagnado, tóxico, todos parecem não saber exatamente o que devem fazer para de fato ajudarem uns aos outros. O pai é um estorvo, alguém incapaz de se reinventar após a morte da mulher, alguém que engendra suas próprias Erínias. A história é contada pelos três irmãos mais novos (Antônio, no tempo presente da trama, com os olhos de criança - como Henry James já nos ensinou; Valentina, após vinte e cinco anos dos sucessos vividos pelos irmãos, já com sua cota de aborrecimentos pessoais e brevemente por Pedro, o caçula, quando já bem velho, já tendo sublimado o que ele entende como sua culpa, ter nascido ao mesmo tempo que sua mãe morre). "Roupas sujas" é um romance que convence. É curto, deixa-se ler rapidamente, mas as reflexões dos narradores acompanham o leitor por dias. Interessante mesmo. Leonardo sabe falar sobre sentimentos, estranhamentos, escolhas, coisas que normalmente evitamos fazer, como, por exemplo, quando temos notícia de uma desgraça pessoal ou familiar alheia às nossas, e não sabendo como tragar aquilo tudo, sacudimos a cabeça tentando espantar o mal estar, o desconforto. Ele alcança nos fazer tomar todo o cálice de dor de seus personagens. O gosto é amargo, mas nele há alguma sabedoria. Vale! 
Registro #1253 (romance #330)
[início: 03/12/2017 - fim: 04/12/2017]
"Roupas sujas", Leonardo Brasiliense, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhias das Letras), 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 180 págs., ISBN: 978-85-359-2999-7

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

a árvore que falava aramaico

Em "A árvore que falava aramaico", de José Francisco Botelho, estão reunidos 15 contos, divididos em dois conjuntos. Nos 6 enfeixados em "Peripécias" sempre um narrador jovem conta algo fragmentário, resgatado da memória, um fato marcante, vivido no campo, ou perto de uma fronteira (a do Uruguai, claro) ou num litoral. São histórias variadas: de uma ventania que revela mais que a destruição física das cousas; de uma viagem clandestina de barco, aproximando pai e filho; da presença de um primo turco, contrabandista, e seus segredos; da sedução que uma gringa sardenta provoca num rapaz; da venda de uma antiga propriedade e a dor da separação; de um morto que continua a ver o mundo enquanto é roído pelos bichos do lugar onde caiu. As descrições são muito interessantes, mas é a linguagem que se destaca nos contos. O vocabulário é rico, cheio de mimos, de uma exuberância que não intoxica o leitor. Esses seis contos pareciam ecoar o pampa, traírem uma influência de Mario Arregui. Entretanto, no conjunto seguinte, nos 9 contos reunidos em "Grimório", o leitor é levado para ambientes mágicos e complexos, ao mundo interior de personagens enigmáticos, perturbados, intoxicados por suas próprias histórias, memórias e sucessos. Alguns parecem lembranças de sonhos ou pesadelos, fragmentos de feitiços e encantamentos, noutros parece que é o tédio que se encarna, para tornar-se interlocutor dos personagens, ou ainda é um espírito ou um duende brincalhão que confunde as percepções da realidade deles. A linguagem fica ainda mais rica nessas histórias, mas de uma erudição que não afasta o leitor, algo raro. Como escrevi para uns amigos quando terminei o livro, ainda no início de dezembro, impressionado com a potência dos contos, Botelho parece um mago, um djin, um Huysmans caboclo, um sujeito de quem vale a pena esperar novas conjurações literárias. Ojo! 
Registro #1252 (contos #145) 
[início: 01/12/2017 - fim: 03/12/2017]
"A árvore que falava aramaico", José Francisco Botelho, Porto Alegre:  Editora Zouk, 2a. edição (2014), brochura 12,5x18 cm., 174 págs., ISBN: 978-85-8049-028-2

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

arte e natureza

Só hoje, após um mês de descanso, retomo os meus registros (mas, já se sabe, os livros continuaram a ser lidos). Os primeiros dias do ano foram dedicados aos preparativos da formatura da Natiuska DC, no dia 06/01, justamente o dia de seu aniversário (era também o dia de aniversário de doña Vic, que acrescentou um sortilégio extra às alegrias do dia). Depois foram as aventuras nas terras altas de Itaara que me afastaram de um computador. E, como Proust já nos ensinou, o hábito, fiel camareiro, nos acostuma a qualquer novo arranjo de nosso cotidiano, por mais vagabundo, condenável e inútil que seja. Carrego do ano passado, atrasados, uma boa cota de registros de leitura, cousas que ou os aborrecimentos dos últimos dias do ano ou as alegrias das primeiras semanas de janeiro impediram-me fazer. Paciência. Para refrear algo da ansiedade fiquei nas ultimas semanas alternando leituras bem variadas (Elena Ferrante, Donna Leon, Otaviano Helene, Laurence Sterne, Peter Sloterdijk, Bashô, Umberto Eco, Teolinda Gersão) e as delicias desse "Arte e Natureza", edição bilíngue da Luste Editores. Comprei-o ainda no inicio do ano passado e o dei de presente para doña Helga, que de fato é senhora desses dois assuntos, por instinto, índole, compromisso acadêmico e vontade. Trata-se de um volume precioso, repleto de reproduções fotográficas e curtos textos, que contextualizam imagens de obras e museus. Serena Ucelli di Nemi organiza e assina o volume, fez a curadoria dos museus e obras descritas, mas quem assina os textos é Waldick Jatobá. Ambos são bastante respeitados no circuito de arte contemporânea. O livro fala de 27 propostas museológicas, de parques de escultura (ou parques escultura), museus a céu aberto, onde as obras artísticas e a paisagem natural se fundem em algo único, especial, dialogam entre si, oferecem ao espectador, uma experiência a ser desfrutada por pelo menos quatro dos cinco sentidos. Como Serena Ucelli fala na curta introdução de seu livro, os critérios de escolha dos espaços apresentados no livro foram: (i) A qualidade artística das peças e a relevância dos artistas dos acervos citados; (ii) O respeito ao meio ambiente natural onde foram instalados os museus, a harmonia alcançada; (iii) Os parques onde um máximo de possibilidades de interação e contato direto é oferecido ao visitante; (iv) Os parques escultura mais antigos e tradicionais, (v) Os parques com as obras mais monumentais tanto no tema quanto na forma. O leitor viaja pelos continentes guiado por Serena e Waldick. Do Brasil o leitor encontra inevitavelmente Inhotim, aquela jóia incrustada nas terras altas das Minas dos Matos Gerais (Já falei de meu assombro ao visitar aquele espaço, em 2012, quando resenhei "Através: Inhotim"). Mas se a proposta de Inhotim parece única, sobretudo pelo paisagismo imaginado originalmente por Burle Marx e as galerias muito afastadas uma das outras, os demais 26 parques descritos em "Arte e Natureza" encantam com igual vigor, mostram similar beleza e encantamento. Serena e Waldick mostram belíssimos museus a céu aberto em diversos países da Europa, na América do Norte, no Caribe, no Japão, na Austrália, na África do Sul e em Israel. Difícil dizer para qual eu iria hoje mesmo caso fosse possível eleger apenas um. O Grenada Underwater Sculpture Park é o que mais me impressionou, mas eu mal sei nadar, nunca mergulhei, não poderia conciliar a tensão do mergulho e a fruição estética das obras. O Springhornhof (na Alemanha), O Kröller-Müller Museum (na Holanda) e o Benesse Art Site Naochima (no Japão) também me pareceram especiais. O leitor pode ter uma ideia modesta do que é descrito no livro no site da editora (clika!). ÔBeleza. Feliz ano, para você e todo mundo. Um adendo: encontrei um link onde se fala de outros museus a céu aberto brasileiros, não descritos no livro de Serena e Waldick: (o Felícia Leirner, em Campos do Jordão; o Oficina Brennand, no Recife; e o Parque Carembeí, no Paraná): clika! Um outro adendo: Seguirei o ano nessa toada de hibridizações. Vou tentar falar mais sobre os livros de arte e de ciência, mais sobre mitologia e os gregos, mais clássicos e mais genuínos divertimentos. Sempre buscarei as propostas literárias mais fortes, tentarei preocupar-me menos com os indigentes morais e escravos mentais, os idiotas úteis e palhaços por vocação que habitam esse desgraçado país. Logo veremos. 
Registro #1251 (livro de arte #22) 
[início: 22/12/2017 - fim: 20/01/2018]
"Arte e Natureza: Museus a céu aberto", Serena Ucelli di Nemi (curadoria) e Waldick Jatobá (texto), São Paulo: Luste Editores, 1a. edição (2016), capa-dura 29x29 cm., 278 págs., ISBN: 978-85-61914-219-9

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

um balanço provisório

Em 2017 entendi na prática as palavras de Flaubert que li há tantos anos: "Meu coração está se transformando numa necrópole". À morte de minha mãe, no final de dezembro de 2016, seguiu-se a de meu pai, no meio de junho. Perdemos também uma de nossas gatas, a Niham. Que praga! Enterrei alguns amigos, perdi-me de outros, outros me erraram, felizmente. Acontece. Li bastante poesia e peças de teatro em 2017. De fato, desde o início de 2007, quando esse "Livros que eu li" fez-se às ondas do rumoroso mar digital, só em 2012 li tantos e bons volumes de poesia. Bueno. Em 2017 fiz 125 registros de leitura, aumentando um tanto a media dos dez anos do blog. Foram 28 romances (22% do total), 19 livros de crônicas ou de ensaios (15%), 19 de contos, 10 de poesia, 10 romances policiais, 7 livros de arte, 6 novelas, 6 peças de teatro, 4 de perfis e memórias, 4 histórias em quadrinhos, 3 infantojuvenis, 3 de turismo, 2 de gastronomia, e um mais ou menos dentro da seguinte classificação: de fotografias, de cartas, catálogo de uma exposição de arte e de aforismos (talvez o mais fundamental deles, o do Ambrose Bierce). Já disse que li bastante boa poesia (Tápia, Medeiros e Aleixo, entre outros) e bons dramas (Shakespeare, nas estimulantes traduções de Botelho, Lawrence e O'Shea; Sófocles, na da Kathrin ); li cousas boas japas (Tanizaki, Kafu, Buson, Murakami); li a excelente biografia de Von Hunboldt; oito bons romances policiais de Donna Leon, 4 belas plaquetes do povo da At it Again. Li os quatro volumes da Série Napolitana de Elena Ferrante. Li o bom Pamuk mais recente. Li poucos livros em inglês (só 5% do total) e em espanhol (6%), talvez meu pior registro histórico. Paciência. Isso se deu pois nunca havia lido tantos autores nacionais. Foram 40 volumes, 32% do total. Alguns foram gratas surpresas, outros merecem uma releitura, mas não me entusiasmaram tanto assim. Aqueles que deixei de 2016 para ler em 2017 continuaram no limbo das promessas e dos planos, aquela zona fantasma, muito embora eu tenha avançado um bocado no Tristram Shandy traduzido pelo Javier Marías. Foram 0,35 livros por dia, 2,46 por semana, 10,5 por mês. Foram aproximadamente 2/3 livros de ficção, 1/5 de não ficção e 1/5 de bons divertimentos, seguindo o bom conselho do Montaigne. Ajudei minimamente o industrioso Abdon Grillo a editar seu estudo sobre o Ulysses, que será lançado no início de fevereiro, no dia de aniversário do Joyce. Que alegria. Acompanhei os sucessos das meninas da famiglia, Helga e Natália, que receberá seu título de bacharelado em Psicologia em breve, no próximo dia 06. Viajei bastante, conheci alguns lugares realmente interessantes do interior do Brasil. Em 2018 haverá mais boa poesia, haverá os haikus do Bachô editados em Portugal, os novos livros de Sérgio Medeiros e Ricardo Aleixo, a leitura do Finnegans Wake da Dirce do Amarante, as novas transcrições caetnogalindescas, a sempre postergada biografia do Johnson. Haverá mais Donna Leon, gostei do estilo dela. O Javier Marías deverá lançar mais um livro com suas crônicas semanais reunidas. Haverá mais biografias e coisas musicais. Pretendo voltar aos gregos e aos mitos. Talvez irei seguir o conselho de um amigo de longe, para fazer registros das leituras antigas, prévias a existência do blog. É uma ideia ainda bruxuleante. Haverá Copa do mundo de futebol, eleições, um Bloomsday Santa Maria novo. Talvez eu volte para a Irlanda, desta vez com a Helga. Logo veremos. É isso. Vale!