terça-feira, 27 de setembro de 2016

a origem dos elementos químicos

Neste pequeno livro Antônio Morais apresenta uma versão didática de um assunto complexo, que é o de explicar a nucleossíntese, ou seja, a formação dos elementos da tabela periódica. Trata-se de uma conquista da física que começou em meados dos anos 1940, quando George Gamow propôs o modelo do Big-Bang, a hipótese de que o universo evoluiu a partir de um estado extremamente quente e denso que, ao se expandir com o tempo, se resfria e se dilui. Gamow propôs também modelos para a criação das galáxias e para as reações nucleares nas estrelas. Antônio Morais parte da ideia de átomo dos gregos e sua cosmologia e acompanha o leitor por uma sucessão de grandes feitos científicos do século XX que culminam com a detecção da radiação cósmica de fundo, que é o resquício das altas temperaturas no passado de nosso universo. Há um pouco de tudo: história da tabela periódica; o modelo padrão de partículas; teoria das cordas; a física das supernovas; a física das interações fundamentais da matéria. A linguagem é simples, mas os conceitos físicos são sempre bem explicados. Não há espaço para aprofundar as questões, mas o livro se presta a informar corretamente o leitor sobre temas que são fascinantes, mas que cobram uma capacidade de abstração não trivial. Em suma, trata-se de um texto escrito para um público amplo, notadamente o do ensino fundamental e médio, que pode transmitir ao leitor algo da aventura da física do século XX.
[início: 05/04/2016 - fim: 19/09/2016]
"A origem dos elementos químicos: Uma abordagem inicial", Antônio Manuel Alves Morais, São Paulo: Livraria da Física Editorial, 2a. edição (2010), brochura 14x21 cm., 104 págs., ISBN: 978-85-7861-042-5

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

cuadernos d'itaca

De todos os bons trabalhos que já li de Alfonso Zapico esse é o mais pessoal, mais intimista, mais especial. São onze histórias curtas, onde ele faz uma espécie de balanço ou ajuste de contas, tanto de sua vida, sua história pessoal, quanto de seu ofício, sua arte. "Cuadernos d'Itaca" está escrito em asturiano, língua que alguém que entenda o português de Portugal e algo do espanhol da Espanha acaba entendendo também, com um justo e necessário esforço. Abundam os "X" galegos e os "LL" catalães (mas só mesmo um linguista para me ensinar como se deve ler essa língua). De qualquer forma aprendi que pelo menos 400 mil pessoas a dominam bem, ao menos como segunda língua. Como vasto é o mundo. Bueno. Vivendo há muitos anos na França Zapico retorna de férias a sua Astúrias natal e sente-se um estrangeiro. Ele se inspira nas viagens de Ulysses pelo mar Egeu para descrever algo de sua "Señardá" (quem diz a palavra que descreve saudade só existe em português não conhece asturiano). Umas gaivotas lhe mostram o caminho. O inspiram a recolher de seu caderno de rascunhos as histórias que contem algo de sua terra. Zapico escreve sobre seu tio Milio, que perdeu o emprego em uma fábrica estatal de equipamentos bélicos; sobre sua decisão de emigrar ao norte, à França; sobre sua casa editorial (a Astiberri), como se fossem uns piratas no mar revolto da edição de livros; faz uma sociologia selvagens dos hábitos franceses; descreve as dificuldades de uma mulher espanhola em conseguir cargos de comando num mundo europeu machista; fala do fechamento das minas asturianas de carvão e o impacto disto na sociedade local; filosofa sobre os tempos modernos, do feroz neoliberalismo que compromete o futuro de uma sociedade que se imaginava sempre ser possível prosperar; conta a história de uma senhora de quase cem anos que emigrou como ele para a França nos tempos da guerra civil espanhola; fala da experiência de viver uns dias na Polônia, num evento literário, um país tão complexo como o seu (afinal, como ele diz, parafrasendo Tolstói "todos os países que parecem felizes são iguais, mas todos os países infelizes o são cada um à sua maneira". Há que se respeitar um autor que usa sua arte para interpretar honestamente o mundo e o tempo que vive (não há um pingo de autoindulgência, comprometimento ideológico ou partidário, cabotinismo ou hipocrisia em suas histórias - cousa que muitos escritores brasileiros se aferram em fazer, imaginando que todos seus eventuais leitores são incapazes de pensar por conta própria). Enfim, como já nos ensinou Auden (traduzido por José Paulo Paes e certamente lido pelo Zapico), todos nós em algum momento nos perguntamos: "Para onde aponta esta jornada, que o vigia do cais, / Parado sob a sua má estrela, inveja tão amargamente, / Enquanto as montanhas nadam para longe em braçadas lentas, calmas, / E as gaivotas abdicam seu vôo? Promete acaso uma vida mais justa?”. Evoé Zapico, evoé. 
[início: 18/08/2016 - fim: 25/09/2016]
"Cuadernos d'Itaca", Alfonso Zapico Fernández, Oviedo/Espanha: Ediciones Trabe, 1a. edição (2014), capa-dura 24x30 cm., 89 págs., ISBN: 978-84-8053-747-6

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

curiosidade

Esse é o milésimo centésimo registro de leitura que faço neste "Livros que eu li", iniciado já no longínquo 01 de janeiro de 2007. Para comemorar este registro e também para celebrar o início da primavera que experimentaremos ainda hoje mais tarde, perto do meio dia, escolhi "Curiosidade", de Alberto Manguel. Os livros de Albert Manguel sempre são especiais. O sujeito sabe contar histórias, tem uma imaginação dos diabos e faz associações das mais criativas e pertinentes. Quem não invejaria francamente alguém que tem 30 mil livros e um castelo na França para guardá-los; quem não gostaria de partilhar de um naco que fosse de seu tempo, memória e experiência? Já li e reli vários outros livros dele, sendo "A Biblioteca à noite" e "A cidade das palavras" dois dos mais recentes. Se nesses ele fala do amor aos livros e do local onde podemos guardá-los, em "Curiosidade" ele discorre sobre aspectos relacionados ao processo de escolha dos livros que lemos ou relemos. Para acompanhá-lo na assombrosa tarefa de descrever do que trata a curiosidade humana Manguel elege Dante Alighieri, assim como este adotou Virgílio em sua jornada Inferno e Purgatório adentro (Beatriz e São Bernardo o levarão depois ao Paraíso, mas essa é outra história). Com a "Divina Commedia" debaixo do braço Manguel parte em suas investigações, buscando clareza e compreensão, curioso ele mesmo por tudo sob o sol e sobre o mar. Os dezessete capítulos têm uma estrutura fixa. Primeiro ele narra um fato quase banal de sua vida (algo sobre sua infância, seus primeiros contatos com as letras e os livros, seus primeiros professores, seu cachorro, um pequeno AVC que sofreu, um trabalho humanitário para o governo canadense, a política conturbada de seu país natal, uma entrevista especial, e assim por diante); depois ele localiza na Divina Comédia argumentos de Dante sobre um assunto que pode ser associado diretamente (ou hiperbolicamente) àquela passagem da memória; e, por fim, ele desenvolve seu raciocínio/associação, acrescentando ao texto de Dante camadas de outros, contando histórias, resumindo algo da mitologia dos gregos e romanos, falando das repercussões, ecos ou influências produzidos por outros autores e/ou escolas de pensamento sobre aquele assunto. Em cada página o leitor encontra algo com o qual poderia dedicar-se uma vida inteira (e há uma generosa lista de livros nas notas de cada capítulo que facilitam essa possível imersão). Os títulos dos capítulos são chaves para análises de temas bem amplos. Minucioso, Manguel se pergunta sobre o que é a curiosidade; sobre o processo de raciocinar; sobre o que vemos e perguntamos; sobre nossa linguagem e nosso eu; nosso papel individual na história; nas consequências de nossas ações; na ordem e desordem natural de tudo; dos porquês e do porvir; da possibilidade de existir mesmo verdade naquilo que aprendemos ou lemos. Além da sofisticada análise do texto de Dante, Manguel vale-se de muitos outros escritores e pensadores, de uma miríade de mitos e histórias. Alguns são óbvias escolhas quando se trata de discutir o engenho humano (Aristóteles, Cervantes, Primo Levi, Nelson Mandela, Lévi-Strauss, Sócrates, santo Agostinho, Homero, David Hume, Lewis Carroll, Tomás de Aquino), mas há vários outros sobre os quais nunca havia ouvido falar, ai de mim, como Paul Otlet e Olympe de Gouges (cada leitor encontrará suas próprias lacunas de formação e seguirá sua própria curiosidade). Fenomenal. A única coisa que eu não gosto neste livro é a tola decisão editorial brasileira de acrescentar um "Uma história da" ao título original do livro, que é simplesmente "Curiosidade", ponto. O livro inclui ainda um vasto índice remissivo e reproduções de xilogravuras que ilustram vários cantos de uma edição de 1487 de "A Divina Comédia", dentre várias outras ilustrações e reproduções fotográficas. Manguel repete algo já ensinado por Ricardo de Bury em seu Philobiblon que todo colecionador de livros deve lembrar: "Um dia alguém deverá contar a meus livros que eu não voltarei mais". Em minha jornada pelo livro lembrei várias vezes do Luiz-Olyntho e do Robson Gonçalves, amigos queridos, que certamente trilharão a leitura deste livro garimpando mais preciosidades do que meu engenho permitiu. Sobre esse "Curiosidade" vamos os três conversar, seguro que sim. Vale.
[início: 01/09/2016 - fim: 19/09/2016]
"Uma história natural da curiosidade", Alberto Manguel, tradução de Paulo Geiger, São Paulo: Editora Schwarcz (Companhia das Letras), 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 488 págs., ISBN: 978-85-359-2770-2 [edição original: Curiosity (New Haven/Connecticut: Yale University Press) 2015]

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

a jornada de felicia

Nunca havia lido nada de William Trevor, premiado escritor irlandês. Foi o Ernani, amigo querido, quem descobriu e me presenteou com o livro. No início, "A jornada de Felicia" parece um romance de suspense psicológico convencional, mas os diálogos curtos, o narrador contido e as longas digressões em que se metamorfoseiam a consciência do protagonista tornam este um livro especial. A trama se passa no início dos anos 1990, numa região empobrecida e áspera da Inglaterra, ao redor de Birmingham. Felicia é uma garota irlandesa que se descobre grávida de um rapaz que na verdade pouco conhece. Ela acredita que ele trabalhe em uma das indústrias da região central da Inglaterra, mas o leitor sabe que ele na verdade está servindo no exército. Acompanhamos sua peregrinação pela região onde acredita poder encontrar o rapaz e como ela se envolve com um misterioso senhor bem mais velho que ela, Hilditch. Contar algo mais sobre a trama estragaria inevitavelmente o prazer do leitor. Há várias passagens muito interessantes sobre a história irlandesa, nas quais aprendemos algo sobre o pai de Felicia e seu ódio aos ingleses e sobre o envolvimento de Hilditch na segunda grande guerra, mas o livro se concentra mesmo apenas nos destinos cruzados destes dois personagens, Felicia e Hilditch. Gostei também das curtas aparições de dezenas de personagens secundários, quase todos de alguma forma marginalizados, patéticos e/ou enlouquecidos (sempre condenados a atividades estéreis, maçantes, mal remuneradas, que se comunicam por grunhidos ou discursam sem se importar com o interesse do interlocutor). Os lugares povoados pelos personagens de Trevor não tem nada do glamour, chame ou encanto que usualmente associamos tanto às grandes cidades inglesas e sua história quanto ao campo inglês e seus bosques bem jardinados, por isso mesmo deve estar mais próximo do que seja o interior de lá. Li que uma versão cinematográfica deste livro foi produzida por Atom Egoyan em 1999. Vou procurar. Vale. 
[início: 09/09/2016 - fim: 17/09/2016]
"A jornada de Felicia", William Trevor, tradução de Elisa Nazarian, Editora Globo (Coleção Biblioteca Azul), 1a. edição (2014), brochura 14x21 cm., 280 págs., ISBN: 978-85-250-5810-2 [edição original: Felicia's Journey (New York: Viking Press / Penguin Random House Group) 1994]

terça-feira, 20 de setembro de 2016

kaos total

No final de julho senti um friúme ao saber que o Jorge Mautner tinha sido hospitalizado por conta de um infarto. Já fazia um par de semanas que lia devagar um livro que três jovens organizaram para celebrar os 75 anos dele, um livro onde estão reunidas praticamente todas as letras de suas composições e também muito material inédito, uma miscelânea dos diabos. Segundo os organizadores (João Paulo Reys, Maria Borba e Natasha Felizi) o arquivo pessoal de Mautner foi vasculhado durante anos. Lá eles garimparam anotações feitas em cadernos, margens de jornal, cadernetas de telefone e no verso de notas fiscais; livros inteiros prontos; narrativas ficcionais inacabadas, esboços de projetos políticos e reflexões filosóficas; pinturas à óleo, desenhos à lápis e colagens. São aproximadamente 150 letras, só umas poucas inéditas. Quase todas foram musicadas por ele mesmo, mas há também canções musicadas por  Nélson Jacobina, Gilberto Gil, Moraes Moreira, Jards Macalé, Caetano Veloso e José Miguel Wisnik, entre vários outros. As composições foram gravadas por ele, entre 1970 e 2014, e também por dezenas de outros intérpretes. Ao ler o livro várias vezes usei o YouTube ou ao Spotify para conferir a música dos poemas e tentar lembrar algo delas. Confesso que não conhecia a maioria das canções, mas a poesia delas se defende sozinha (as musas da poesia e da música eram boas irmãs, ensinaram os gregos). O livro inclui também nove poemas não musicados; um projeto de musical (infanto-juvenil); um proto programa político partidário de seu PRK (Partido Revolucionário do Kaos); uma proposta de constituinte cultural para o Brasil; reflexões mais abstratas, filosóficas; registros da memória, da história de sua família. Trata-se de um sujeito verdadeiramente original, multitalentoso, que sempre segue seu instinto artístico. Grande sujeito. Lembro de uma intoxicada noite na FAU (a faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP), lá no início dos anos 1980, em que fizeram um show que não terminava nunca, para sorte de uma legião de fãs, ele e seu parceiro mais frequente naquela época, o Nélson Jacobina (que morreu há pouco mais de quatro anos). Longa e memorável noite. Cabe dizer que o Mautner se recuperou do infarto, barganhou mais tempo da morte, cousa boa, e que está a prometer livro e revelações quase messiânicas. Vamos a ver. Evoé, Mautner, evoé. 
[início: 23/06/2016 - fim: 17/09/2016]
"Kaos Total", Jorge Mautner, organização de João Paulo Reys, Maria Borba, Natasha Felizi, São Paulo: Editora Schwarcz (Companhia das Letras), 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 414 págs., ISBN: 978-85-359-2673-6

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

onde está tudo aquilo agora?

O bom de ler livros como este "Onde está tudo aquilo agora?" é que o leitor se converte ao otimismo de um sujeito (ao menos durante o tempo de leitura!). Afinal, numa época em que é mais fácil encontrar zumbis demagógicos, falastrões, escravos mentais e tristes servidores de tiranos ou ideólogos fascistas, Gabeira mostra que é possível contribuir para transformações sociais e políticas apenas com inteligência e calma. Seu livro é uma autobiografia breve, um balanço de um jovem senhor, de um sujeito que chegou lúcido e ativo aos 70 anos. Não se perde em detalhes ou causos engraçados. Alcança apresentar o que fez na vida sem cabotinismo, fala de seus muitos erros e dos esporádicos acertos, do perene compromisso com a verdade, do exercício de sempre aprender algo novo, do sempre reinventar-se. Os capítulos são apresentados cronologicamente. Ele nasceu em Juiz de Fora, em 1941 e logo descobriu sua vocação para o jornalismo. Entusiasta e autodidata, consegue sair ainda jovem de Minas Gerais para radicar-se no Rio de Janeiro, senhor de sua vocação. Já sair da redação de um jornal para a clandestinidade foi um ato impulsivo, mas ato que decidido foi executado da melhor forma possível. Nada parecia mais importante que lutar contra a ditadura militar nos anos 1960. A história seguinte é mais ou menos conhecida. No final de 1969 envolveu-se no sequestro de um embaixador norte-americano; levou um tiro; ficou preso na Ilha Grande (do Rio de Janeiro); foi libertado em uma troca de prisioneiros; passou todos os anos 1970 no exílio (e numa eterna preparação para voltar a luta armada) na Argélia, em Cuba, na Alemanha, no Chile e na Suécia. Com anistia, retorna ao Brasil. Lança "O que é isso, companheiro!" (lembro-me das muitas discussões em que me meti por conta dele); funda o partido verde; atua na defesa de minorias e questões ambientais; tem filhas; faz política e jornalismo; torna-se deputado federal por quatro mandatos (mas afasta-se das práticas petistas ainda antes do escândalo do mensalão). Quase ganha a prefeitura do Rio de Janeiro em 2008 (perdeu por 50 mil votos em um eleitorado de 5 milhões) e dois anos depois perde também a chance de governar o Estado do Rio de Janeiro. Afasta-se definitivamente da política partidária e passa a dedicar-se apenas a projetos jornalísticos, onde sempre "critica o cinismo que tomou conta da política brasileira", como ele mesmo diz. O livro é super bem escrito.Não há espaço para autoindulgência. Gabeira sabe ser honesto intelectualmente e explica algo sobre o Brasil contemporâneo. Sabe que não se pode cometer sempre os mesmos erros, que a aventura da vida acaba sempre numa reconciliação com a realidade, mas que o exercício de sempre tentar mudar nossa realidade para melhor é o único que merece ser praticado. O livro termina em uma nota otimista. Mal sabia ele à época das consequências terríveis das fraudes agora desnudadas pela operação Lava-a-Jato, mal sabia dos desastres que organizar a Copa do Mundo de Futebol e a Olimpíada trariam a seu Rio de Janeiro, mal tinha ideia do custo absurdo que teríamos (e ainda teremos todos, por décadas) com a reeleição da medíocre dilma e de seu impeachment. Sabendo novos detalhes de como ele se envolveu no sequestro do Elbrick o absolvo de ter ajudado na libertação do Zé Dirceu, para mim o ato fundador do grande artífice da primeira eleição do lula e do início do período mais podre e irrecuperável da história brasileira, sempre pródiga em desgraças. Enfim, procurando ler mais sobre ele achei um jingle bacana, de sua campanha para governador em 2010. Decididamente, pedir para um brasileiro votar no melhor candidato é mesmo perda de tempo. Grande Gabeira. 
[início: 11/08/2016 - fim: 01/09/2016]
"Onde está tudo aquilo agora? Minha vida na política", Fernando Gabeira, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras), 1a. edição (2012), brochura 14x21 cm., 196 págs., ISBN: 978-85-359-2198-4

domingo, 28 de agosto de 2016

la provincia del hombre

Cada uma das notas reunidas neste livro tem o poder de provocar assombro no leitor. As reflexões de Elias Canetti dificilmente são óbvias, nunca são platitudes, lugares-comuns, raramente deixam o leitor indiferente ou apático. Não se trata de aforismos (gênero no qual ele foi também um mestre). Antes são apontamentos sobre os fatos de sua época, proto ideias para seus livros, reflexões filosóficas, descrições de mitos e histórias antigas, comentários dos mais variados sobre arte, cultura, religião e sociedade. Canetti manteve por décadas blocos de anotações e deles selecionou o material desse robusto conjunto. Canetti nasceu em 1905, numa região onde hoje é a Bulgária, filho de judeus de origem sefardita. Sua vida é interessante e movimentada demais para ser resumida num registro como esse (o leitor curioso deve procurar a maravilhosa série de seus livros de memórias, como "A língua absolvida", "Uma luz no meu ouvido" e "Jogo de olhos"). Em meados dos anos 1930, ainda radicado na Áustria, ele publicou seu primeiro romance, "Auto-de-fé (Die Blendung)", mas já acalentava o projeto que lhe tomaria mais de vinte e cinco anos, escrever o ensaio "Massa e Poder", um dos fundamentais trabalhos sobre etnologia e sociologia do século XX. E é na Inglaterra, para onde emigra no início de 1938, em que ele escreverá não apenas "Massa e poder", como todos os demais volumes de sua obra, que inclui peças de teatro, ensaios, livros de viagem, biografias e de aforismos. Ele torna-se cidadão inglês nos anos 1950, recebe o prêmio Nobel de literatura em 1981 e morre em 1994. As notas reunidas neste "La provincia del hombre", publicado originalmente em 1973, correspondem às três décadas entre os anos 1942 e 1972. Escritor disciplinado, Canetti decidiu que enquanto não terminasse seu ambicioso projeto (Massa e poder), não se envolveria com nenhum outro livro. A tensão envolvida na produção daquela obra cobrava do autor uma válvula de escape, daí o início das notas destes cadernos. Pensadas originalmente como algo que jamais viria a ser editado e publicado elas exibem liberdade temática e de forma. Segundo ele mesmo diz no curto prefácio do livro o exercício diário de escrevê-las tornou-se indispensável e que uma parte significativa de sua vida, o registro fiel de sua consciência sobre aqueles anos, restava absoluto nelas. Mesmo depois da publicação de Massa e poder, em 1960, e do consequente envolvimento dele em outros projetos literários, as notas continuaram dominando sua rotina. Não há assunto relevante da segunda metade do século XX que não esteja comentado nelas. Há reflexões sobre a guerra e a morte; sobre psicologia e religião; sobre o método científico, o poder das palavras, a filosofia como ferramenta da vida prática, não como doutrina esotérica. Canetti vale-se dos mitos de dezenas de religiões, do que aprende sobre culturas primitivas, do que lê sobre a ciência das bombas atômicas e da conquista do espaço; das leituras de entretenimento; de sua voracidade por significados e pela história do homem. Após os anos terríveis da guerra lentamente surgem temas mundanos: a complexidade das relações afetivas; a amizade; a paternidade; a agitação dos cafés e restaurantes. Ele conta sobre o prazer absoluto que é a leitura e sobre a irrelevância de conceitos como sucesso e fracasso. Há textos longos onde ele descreve arquétipos de comportamento e personalidade (talvez antecipando aquilo que se tornaria o engraçado "Todo-ouvidos: Cinquenta caracteres / Der Ohrenzeuge. Fünfzig Charaktere") e outros bem curtos, onde ele propõe utopias, tipos radicais de sociedade, faz exercícios morais e testa o valor ético de algumas proposições. Em algum momento da leitura lembrei-me daquelas séries de gravuras de Goya (Los Caprichos, Los Desastres da Guerra, Los Disparates). Assim como Goya em suas águas-forte e águas-tinta Canetti nestes apontamentos parece demonstrar que entende completamente o homem que é seu contemporâneo (ou mesmo todo aquele que existiu antes dele), parece ser capaz de descrever cada homem e cada sentimento humano muito mais precisamente que cada um de nós alcançaria fazê-lo. Ao mesmo tempo nos lembra que a verdadeira unidade de uma vida é algo tão entranhado em cada um que nem o mais genial dos biógrafos seria capaz de decifrar uma única vida. Experimente ouvir o próprio Canetti narrando uma das notas incluídas neste "A provincia del hombre", uma sobre Kafka. Incrível [Último registro: Li boa parte deste livro no Acre, em Rio Branco, um lugar improvável, porém real, onde há brasileiros, como eu, já nos ensinou o Mário de Andrade].
[início: 06/08/2016 - fim: 28/08/2016]
"La provincia del hombre: Carnet de notas 1942-1972, Elias Canetti, tradução de Eustaqui Barjau, Madrid: Taurus Ediciones (colección Ensayistas #246) / Penguin Random House Grupo Editorial, 1. edição (1982), brochura 14x21 cm., 336 págs., ISBN: 84-306-1216-5 [edição original: Die Provinz des Menschen: Aufzeichnungen 1941-1972 (Munich: Carl Hanser Verlag) 1973]

sábado, 27 de agosto de 2016

tudo já foi dito

Conheci o Pedro Balboni em Porto Alegre, na última edição do Parada Gráfica, aquela feira de publicações independentes e artes gráficas onde sempre encontramos gente e produções bacanas. Desde 2008 ele produz suas joaninhas filosóficas em tirinhas bem humoradas (e o humor sempre é coisa séria). Atualmente elas são veiculadas em várias mídias (e podem ser acompanhadas no site "João & Joanas"). Curiosamente ele não é desenhista. Usa ferramentas digitais em suas ilustrações, mas seu foco é no roteiro, nas histórias. "Tudo foi dito" é resultado de um projeto. Pedro convidou dezoito jovens artistas plásticos e/ou ilustradores para dividirem uma história sua, que envolve uma conversa entre um mestre Zen e um efebo, um aprendiz. Cada um deles teve direito a ilustrar livremente uma página a partir de umas poucas frases do roteiro original. Nenhum teve acesso ao material produzido pelos demais antes da edição final (assinada pelo Pedro). As propostas são muito variadas. Há muitos desenhos tradicionais, a lápis, cera, grafite ou caneta preta; coisas feitas direto no Photoshop; peças finalizadas com tinta nanquim; originais pintados com tinta guache e posteriormente digitalizados. A cada página o leitor tem uma surpresa e precisa reconstruir parte do nexo da narrativa, pois tudo ali sofre contínuas metamorfoses, de cor, cenário e personagens. A ambientação que quase todos artistas criou gravita o mundo oriental, mas o argumento parece brotar do Tractatus Logico-Philosophicus do Wittgenstein: "Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar". A edição do livro foi viabilizada por financiamento coletivo (crowdfunding, em português). Interessante.
[início: 06/08/2016 - fim: 23/08/2016]
"Tudo já foi dito ou Minutos de silêncio ou Ensaio para algo bom", Pedro Hutsch Balboni (organizador), ilustrações de Daniele Postoiev, Fex, Yuri Amaral, Jack Paulo Salazar, Pedro Camargo, Guilherme Petreca, Renato Hirata, Fabio Lopes, Camila Mituzani, Herbert Berbert, Cenira Campos, Gustavo Borges, Renata Ribak, Marcio Aurelio Bertoli, Andre Forni, Milton Mastabi Filho, Erick Carges e Douglas Docelino, São Paulo: editora Catarse, 1a. edição (2014), brochura 16x23 cm., 62 págs., ISBN: 978-85-91-47836-1.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

elogio da leitura

Neste pequeno livro encontramos o discurso de aceitação do prêmio Nobel de literatura de 2010, recebido pelo peruano Mario Vargas Llosa. O texto é objetivo e rende homenagens tanto à sensibilidade e a memória afetiva de um escritor emocionado quanto à razão de um intelectual engajado, que sabe de seu papel ao defender opiniões. Vargas Llosa conta rapidamente suas errâncias e seus anos de formação. Ele dá conta de como aprendeu a ler; de suas influências e débitos literários; de seu ideário político; fala dos muitos povos de seu país, de suas variadas línguas e culturas, e de como ali se mesclaram; fala dos desafios, perigos e da complexidade inerente que é a vida no mundo contemporâneo (sobretudo do papel da literatura frente a estes desafios). Como ele mesmo diz: "Sem a literatura seríamos menos conscientes da importância da liberdade para que a vida possa ser vivida e do inferno em que ela se converte quando é controlada por um tirano, uma ideologia ou uma religião. A literatura cria uma fraternidade dentro da diversidade humana e eclipsa as fronteiras erguidas entres os homo sapiens sapiens, seja pela ignorância, seja pelas ideologias, religiões, idiomas ou pela estupidez. A leitura é mais que um entretenimento, mais do que um exercício intelectual que aguça a sensibilidade e desperta o espírito crítico. É uma necessidade imprescindível para a que a civilização continue existindo". Vê-se que ele é mesmo um otimista. Quem viver mais tempo verá se não será a ignorância e a barbárie quem terá a última palavra. O livro inclui também uma transcrição da entrevista que Adam Smith, editor-chefe do site da fundação Nobel (Nobelprize.org) fez com Vargas Llosa ainda na manhã do 7 de outubro de 2010, quando foi anunciado o prêmio. É curta, mas o leitor percebe que o sujeito sabe ser lúcido mesmo quando é pego desprevenido. Vale.
[início - fim: 11/08/2016]
"Elogia da leitura", Mario Vargas Llosa, tradução de Larry Fernandes, Santos: editora Simonsen, 1a. edição (2015), capa-dura 12x18 cm., 48 págs., ISBN: 978-85- [edição original: In praise of reading and fiction (New York: Farrar, Straus and Giroux (Macmillan group) 2011]