sábado, 25 de março de 2017

early stones

Na última quinta-feira ficou comprovado que a grande maioria dos brasileiros padece daquele viés cognitivo conhecido pelos psicólogos como efeito Dunning-Kruger, fenômeno no qual indivíduos que possuem pouco conhecimento sobre um assunto acreditam saber mais que quaisquer outros. O fenômeno pode ser rapidamente entendido quando visualizado graficamente (caso você esteja curioso consulte esses dois links: Dunning-Kruger e Monte da Estupidez). Pois então. Aborrecido com a legião de imbecis que divulgaram suas impressões improvisadas sobre o significado da reforma da previdência em discussão, a ascensão de Donald Trump, o atentado terrorista em Londres ou a recente votação da terceirização pela câmara dos deputados (legião que conta com alguns indivíduos particularmente patéticos e canalhas, sobretudo entre jornalistas, músicos e atores tupiniquins), resolvi encontrar algum conforto em artistas que admiro e de fato têm algum estofo. Procurava a biografia do Frank Zappa, gênio dos gênios quando se tratava de fustigar a estupidez reinante em seu tempo, mas nos guardados da biblioteca eis que encontrei esse "Early Stones", sensacional seleção de fotos de Michael Cooper feitas na primeira década de existência dos Rolling Stones. Cooper era um fotógrafo e produtor muito talentoso que acompanhou de perto a banda, participando dos ensaios, shows, turnês e festas. Era amigo próximo de Keith Richards. Produziu em 1967 duas das capas de discos mais icônicas do Rock and Roll, uma dos Stones, a do álbum "Their Satanic Magestic Request", e outra dos Beatles, a do álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. Como muitos daquela turma e geração (Brian Jones, dos Stones, inclusive), Cooper morreu jovem. Deixou um acervo de mais de 70 mil fotografias, que é administrado por seu filho, Adam Cooper, sujeito que assina (com sua mulher, Silvia Cooper) a organização e edição deste livro, lançado originalmente em 1992. O livro inclui ensaios de Keith Richards e  Terry Southern, além de fragmentos de entrevistas com Keith, Terry, Marianne Faithfull, Ian Stewart e Anita Pallenberg. Mas são as fotografias que dominam o livro. Encontramos cenas do cotidiano, registros do que acontecia nos bastidores de estúdios e hotéis. O leitor pode experimentar algo dos momentos mágicos capturados por Cooper em várias coleções de fotos, como essa arquivada no Pinterest, ou simplesmente digitando no Google: Michael Cooper photographer. Incrível.
[início - fim: 23/03/2017]
"Early Stones: Fotografias legendárias do início da banda por Michael Cooper", Michael Cooper, tradução de Mariana Marcoantonio, São Paulo: Editora Planeta, 1a. edição (2012), brochura 20x24 cm., 326 págs., ISBN: 978-85-7665-981-5 [edição original: The Early Stones: Legendary Photographs of a Band in the Making 1963-1973 (Paris: Hyperion Books / Hachette book Group) 1992]

quinta-feira, 23 de março de 2017

ouça a canção do vento, pinball 1973

Neste volume estão reunidas duas novelas de Haruki Murakami. São suas duas primeiras publicações. Com "Ouça a canção do vento" ele ganhou um concurso literário importante, promovido pela revista literária japonesa Gunzo. "Pinball, 1973" foi publicado logo após a boa recepção do primeiro livro. Esses dois volumes e um terceiro ("Caçando carneiros") formam um trilogia, pois compartilham um protagonista, "Rato", e algo da temática, centrada na solidão e em nosso apego a bobas idiossincrasias. Foram escritos quando ele ainda era dono de um bar em Tokyo. Em "Ouça a canção do vento" acompanhamos três semanas de verão na vida do narrador, seu amigo Rato, um sujeito que tenta escrever romances, e o dono chinês de um bar à beira-mar que ambos frequentam. Eles vivenciam situações comuns, discutem temas banais e colecionam trivialidades. O narrador está de férias da universidade, lembra de uma antiga namorada que cometeu suicídio, se envolve com uma garota que conheceu no bar e trabalha em uma loja de discos, toma cerveja em demasia. Em "Pinball, 1973" o leitor reencontra os três personagens da novela anterior: o narrador, Rato e J (o dono de bar chinês). O narrador ganha a vida como tradutor, mas trata-se de uma atividade provisória, um cotidiano improvisado. Divide sua casa e cama com duas gêmeas, arranjo que gera cenas surreais e cômicas ao livro. Ele relembra coisas de seus dias de universidade (como o suicídio da antiga namorada) e conta algo sobre a complicada vida afetiva e familiar de seu amigo Rato. Também toma cerveja, lê Kant, ouve música clássica, passeia com as gêmeas por um campo de golf contíguo a sua casa nos finais de tarde de outono. No último terço do livro descobrimos que o narrador é um sujeito obcecado por máquinas de fliperama (Pinball, em português). Ele conta a história de seus recordes e de como um dia foi levado às instalações de um galpão onde um excêntrico colecionador armazena dezenas de máquinas de fliperama, de diversos modelos. Após terminar de jogar sua última partida em sua máquina favorita (momento em que, como num transe, parece ter sido suspensa a passagem do tempo) ele retoma sua vida. Nas duas novelas o importante não é exatamente o que se narra, a história, mas sim a sensação ambígua de familiaridade e estranhamento que os livros produzem no leitor. Nada importante parece acontecer, a solidão não é algo que incomoda as pessoas, a apatia do narrador parece refletir a de seus interlocutores, o tempo passa, as pessoas passam por uma metamorfose lenta. Interessante. 
[início: 13/02/2017 - fim: 22/02/2017]
"Ouça a canção do vento / Pinball, 1973", Haruki Murakami, tradução de Rita Kohl, Rio de Janeiro: Alfaguara Grupo Penguin Random House, 1a. edição (2016), capa-dura 15,5x24 cm., 267 págs., ISBN: 978-85-5652-029-6 [edições originais: Kaze No Uta O Kike - 風の歌を聴け (Tokyo: Gunzo) 1979 / Sen-Kyūhyaku-Nanajū-San-Nen no Pinbōru - 1979 1973年のピンボール (Tokyo: Kodansha) 1980]

segunda-feira, 20 de março de 2017

as crônicas do brasil

De Kipling conhecia apenas as histórias do menino Mogli e o poderoso "O homem que queria ser rei", já registrado aqui. Neste "As crônicas do Brasil" estão reunidas sete cartas de viagem que Kipling produziu entre fevereiro e março de 1927, quando fez uma visita ao Brasil. As cartas (mas podemos chamar de artigos) foram publicadas originalmente no jornal inglês Morning Post e, postumamente, em 1940, reunidas em livro. Cada carta é acompanhada por um poema. Kipling já era uma celebridade, havia ganho o prêmio Nobel de literatura em 1907. No final da década de 1920, adoentado, Kipling resolveu aceitar a recomendação de seu médico e fazer uma longa viagem marítima ao redor do mundo. As sete cartas descrevem um Brasil misterioso, que esconde prodígios ainda inacessíveis aos homens (o sujeito praticamente só conheceu o litoral, imagine só o que não diria caso se aventurasse aos grotões do interior). A primeira das cartas é escrita ainda no porto de partida, em Southampton, quando ele descreve o som do português e do espanhol falado pelos viajantes que rumam ao Rio de Janeiro ou a Buenos Aires. Depois de aportar ele começa os registros propriamente brasileiros: primeiro dos passeios pela exuberante paisagem da cidade do Rio de Janeiro, presa entre o mar e a montanha; depois da viagem por cabotagem até o porto de Santos e a descrição da letargia que as tardes de sol provocam nos marinheiros; logo fala sobre a visita que faz até o Instituto Butantã e do que aprende das cobras e da ciência praticada aqui; mais tarde é sobre uma grande fazenda de café que ele se dedica falar, reproduzindo os causos que ouve sobre o dinheiro fácil que o café produz; a mais impressionante das histórias trata do sucesso de engenharia que foi a construção da estrada de ferro entre São Paulo e Santos, vencendo o grande desnível e os perigos da Serra do Mar. A última carta é a mais panorâmica. Ele tenta descrever todos os contrastes que experimentou e as maravilhas que viu naqueles dias: discursos numa academia (talvez a de letras?); a loucura do carnaval; os quilowatt-hora que uma hidrelétrica produz; os relatos dos imigrantes que fugiram da primeira grande guerra e se radicaram no Brasil; a inspiração francesa dos intelectuais da época; a franqueza do jogo do bicho; a resistência ao álcool dos habitantes; as diferenças entre o Brasil e os demais países sul-americanos; a certeza dos paulistas sobre serem quatrocentões e mais trabalhadores que os demais brasileiros. Não dá para cobrar precisão para um viajante que fica dois meses em um país tão complexo quanto o Brasil. O exotismo intoxica o sujeito. A sociologia dele é selvagem, mas como observador experiente ele não deixa de apontar cousas que ainda nos assombram, noventa anos depois. Talvez culturalmente o Brasil já estivesse antenado para a modernidade, mas para o desenvolvimento industrial seria necessária a segunda grande guerra e o dinheiro norte-americano.  Em alguma parte das cartas ele escreve: "O Deus deles (...) é brasileiro". Sim, ele entendeu tudo, muitos brasileiros parecem mesmo acreditar nisto até hoje. O livro é bilíngüe e bem editado. Os poemas que acompanham os artigos são líricos, funcionam bem em inglês. Em tempo: Encontrei muito material sobre ele na página "Kipling society". Vale a pena dar uma olhada.
[início/fim : 07/03/2017]
"As crônicas do Brasil / Brazilian Sketches: edição bilíngue", Rudyard Kipling, tradução de Luciano Salgado, São Paulo: Editora Landmark, 1a. edição (2006), brochura 16x23 cm., 144 págs., ISBN: 978-85-88781-28-X [edição original: Brazilian Sketches (New York: Doubleday, Doran & Company) 1940]

sexta-feira, 17 de março de 2017

romping through dubliners

Quem já leu Dubliners, o genial livro de contos de James Joyce, sabe algo sobre a força de seu texto, de sua imaginação, de suas epifanias. No ano passado a turma do "At it again!", grupo teatral irlandês que produz esquetes ao vivo durante as comemorações festivas dos Bloomsday de Dublin, produziu sua versão do Dublinenses em sua série "Romping through" (da qual aliás, tempo atrás, li o divertido "Romping through Ulysses"). Trata-se de uma plaquete, que introduz ao leitor a ideia global do livro, o contexto de sua publicação (antes as dificuldades de sua publicação) e em que se faz uma curta sinopse de cada um dos contos. Eles sugerem também uma série de atividades que expandem a experiência da leitura. Na proposta do grupo o leitor pode visitar os locais citados nos contos; reproduzir algo que os personagens dos contos fazem, como preparar bebidas, visitar amigos, refletir sobre a vida, fazer jogos mentais, escrever cartas, vestir roupas de época, ler autores caros aos protagonistas das histórias. Cada conto ganha também uma ilustração, uma eventual citação e alguma informação paratextual, como dados sobre a geografia atual de Dublin e a localização de alguns dos marcos literários da cidade. O livro incluí vários mapas da cidade, que permitem a experiência de flanar por ela quase simultaneamente a leitura dos contos (que é mais ou menos a proposta original do grupo). Se o sujeito precisa de algo para inspirá-lo a imergir na obra de Joyce esse é um dos bons atalhos. Cabe lembrar que o povo do "At it again!" passou a produzir também plaquetes dedicadas a outros autores irlandeses, como Bram Stoker, Oscar Wilde e Jonathan Swift, sobre os quais em breve falarei aqui. Vale, ou melhor, Sláinte!
[início: 22/02/2017 - fim: 24/02/2017]
"Romping through Dubliners", Maite López, Jessica Peel-Yates, Niall Laverty (illustrations), James Moore, Dublin: At it Again! (1a. edição) 2016, brochura 10,5x15,5 cm., 61 págs., ISBN: 978-0-9576559-4-2

terça-feira, 14 de março de 2017

a camisa do marido

São nove contos que gravitam o mundo das mulheres. A narradora conta histórias, colhe memórias de uma tia, de uma mãe, de uma madrasta, de uma irmã ou sobrinha; dá voz a uma aldeã, a uma menina, a um poeta, a um filho perdido. As tramas são engenhosas. Há histórias algo bíblicas, com ecos faulknerianos, narrativas de vingança, ciúme e morte; histórias literárias, uma que brinca com uma passagem do Quijote e outra que fala dos aborrecimentos de Camões; histórias de família, onde mistério e mentira torturam as gentes. Nélida Piñon cria personagens femininas que não são cabotinas, não comungam falsos heroísmos ou poderes mágicos. São reais, respiram o mesmo ar que nós, receberão o mesmo naco de terra para descansar. Nas histórias sentimos algo da aridez da meseta ibérica, do silêncio calmo dos lugares que fogem dos ruídos do mar, da escuridão da mata fechada que dá aos dias a extravagância do mundo dos sonhos. O último dos contos, "A desdita da lira", é o que mais gostei. Nele não encontramos uma protagonista feminina, como nos oito contos anteriores, mas senti a presença da Musa de Camões assombrando o conto. O velho poeta lambe as feridas da vida, parece lamentar a força do poema que publicou, pois conhece dele as mentiras, os excessos, o ufanismo besta que num turbilhão sempre a tudo destrói. Para ele (como antes, para Terêncio) nada do que é humano é estranho, porém, numa coda amarga, que o próprio Terêncio não previu, sabe que é mesmo muito estranha a alegria de viver.  Esses nove e curtos contos confessam a boa artífice que os engendrou. Vale. 
[início: 21/02/2017 - fim: 22/02/2017]
"A camisa do marido", Nélida Piñon, Rio de Janeiro: Editora Record, 1a. edição (2014), brochura 14x21 cm., 158 págs., ISBN: 978-85-01-06633-6

sábado, 11 de março de 2017

estórias de boteco

Quem conhece o Valmor Simonetti sabe de sua dedicação a literatura, ao cinema e a nobre arte de contar causos. Há uns anos começou a fazer oficinas literárias e participou de várias publicações coletivas (já registrei uma delas aqui: "Amor a Porto Alegre", que é de 2010, mas ele teve contos seus publicados em pelo menos seis outras coletâneas desde 2009). Recentemente Valmor resolveu publicar um volume apenas com seus contos, defender-se sozinho. São 25 histórias, um quarto delas inéditas. Suas histórias gravitam os botecos, notadamente os porto-alegrenses, mas também há histórias que se passam em Buenos Aires, em Montevidéu e em Paris, assim como outras que nasceram nos pampas, na serra gaúcha ou na fronteira. Os contos brotam do bom humor, de uma visão otimista das coisas da vida, mas em algum momento o leitor sente também algo do amargor e da melancolia que gravitam as noites e acontecimentos típicos de um bar. O protagonista dos contos pode ser o Padre, o Jefraim, o Zagreu ou o Walter Ego, mas o narrador é sempre um Valmor que não se preocupa em disfarçar-se, que se dedica a procurar aquilo de mais humano e nobre nos interlocutores. Nove contos também ganharam versões em outras línguas, pois fizeram parte originalmente de publicações bilíngues nascidas da oficina de criação literária organizada pelo Alcy Cheuiche: quatro ganharam versões em francês, duas em espanhol e uma em guarani. Esse livro me pareceu aparentado com dois outros que li recentemente, o "Luz em nevoeiro", do Iuri Müller, e o "Lontanaza bar", do David Toscana. Sempre acho que há livros que viajam em bando, que os livros tem esse hábito de se aproximarem juntos de um sujeito. Os contos do Valmor ficaram sim em boa e adequada companhia. Vale.
[início: 30/01/2017 - fim: 31/01/2017]
"Estórias de boteco et alii", Valmor Braga Simonetti, Porto Alegre: editora AGE, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 95 págs., ISBN: 978-85-8343-285-2

quarta-feira, 8 de março de 2017

história do novo sobrenome

A narradora de "A amiga genial" termina sua história deixando o leitor em um suspense dos diabos. Ao final daquele volume não há como resistir a necessidade de saber qual seria a reação da protagonista (Raffaella) ao ver nos pés de um sujeito que ela abomina os sapatos que deu a seu marido, justamente na festa de seu casamento. O segundo volume da série, "História do novo sobrenome", explica os desdobramentos daquele choque e de muitos outros sucessos. Se no primeiro volume é a memória direta (porém traiçoeira) dos acontecimentos da infância e adolescência que trilha a história, nesse segundo volume a narradora (Elena) opta por um artifício literariamente conhecido e eficaz, o do fortuito acesso aos diários da pessoa sobre quem se escreve (Raffaella). A narrativa avança cronologicamente e as vidas paralelas de Elena e Raffaella se espelham continuamente. O livro navega em assuntos espinhosos: os conflitos sociais dos anos 1960; o papel e as lutas das mulheres italianas em uma sociedade abertamente machista; a descoberta do prazer e da sexualidade; a dificuldade de essencialmente entendermos as razões e o comportamento dos outros, por mais que os conheçamos; a impossibilidade de sermos fiéis ao mesmo tempo a nós mesmos e aos outros. A narradora em algum momento confessa não ter empatia por seu "eu" do passado (sabedoria prática que Proust já havia feito Elstir nos ensinar). A narradora descobre que a arte (a literatura, no caso) pode servir para que alguém se entenda, se descubra (descubra sua voz interior, entenda talvez até toda sua geração e país), ou seja, que todo homo sapiens sapiens sabe contar ao menos uma história universal, que é a sua. Descobrirá depois (já no terceiro volume) que inventar algo que tenha a potência da vida vivida é muito mais difícil que apenas apelar para a memória e que essas dificuldades cobram caro à autoestima de qualquer escritor. A narradora conta sobre seus anos de universidade e os aborrecimentos de sua amiga em um casamento condenado ao fracasso. Mas não são o suspense programado ou apenas a curiosidade provocada que sustentam o livro. O que realmente enfeitiça o leitor é a riqueza de detalhes dos processos mentais que a autora é capaz de emular. O fluxo de palavras e a consciência dos humores voláteis de cada personagem parecem reais, vívidos, convencem até o mais ranzinza dos leitores. A série napolitana é sim um único e caudaloso romance, dividido em volumes por razões comerciais, mercadológicas, editoriais. Como em todo Bildungsroman (romance de formação) vamos acompanhar as metamorfoses dos personagens principais e saber do destino deles, mas será a qualidade da narrativa que tornará a leitura sempre algo tão prazeroso. Vale. Vamos em frente.
[início: 05/02/2017 - fim 10/02/2017]
"História do novo sobrenome: juventude", Elena Ferrante, tradução de Maurício Santana Dias, Rio de Janeiro: Editora Globo (coleção Biblioteca Azul), 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 472 págs., ISBN: 978-85-250-6122-5 [edição original: Storia del nuovo cognome (Roma: Edizione E/O) 2011]

sábado, 4 de março de 2017

nomes de lugares

Noutro dia encontrei esse volume das adaptações que Stéphane Heuet, designer e quadrinista francês, tem feito do ciclo "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust. A experiência de ler essas adaptações jamais substituirá os encantos dos originais, mas deve-se reconhecer que elas são muito bem feitas. O leitor entra no clima dos livros, alcança algumas das alegrias do texto por meio das soluções gráficas produzidas por Heuet. Neste volume (o sexto da coleção produzida até aqui por Heuet) encontramos um dos menores capítulos, "Nome de lugares: O nome", que é justamente o que encerra o primeiro volume do ciclo. Nele encontramos os fragmentos de memórias do narrador de seus dias de juventude, quando imaginava viagens para lugares caros à sua imaginação, como Florença, Parma, Balbec e Veneza, e quando fez os primeiros contatos mundanos com Gilberte, a filha de Odette e Swann, e também com a própria Odette. Assim, as tardes no Bois de Boulogne ou nos Champs-Élysées existem apenas para esses dois propósitos quase amorosos: os encontros para jogos e brincadeiras infantis com Gilberte ou a discreta corte à Sra. Swann, pessoa que a família do narrador interdita de visitá-los oficialmente. É difícil dizer se um dia Heuet alcançara terminar suas adaptações do ciclo. Gostaria mesmo de ver esse projeto finalizado. A edição brasileira continua bem cuidada. Incluí um mapa da Paris retratada no livro, bem como um glossário dos personagens e uma miríade de informações complementares, dirigidas àqueles pouco familiarizados com a obra de Proust e que possibilitam uma apreciação mais prazerosa do livro. Divertido, mas vamos em frente. Em tempo: [Semanas atrás morreu um sujeito que eu admirava muito, autor de um projeto semelhante a este de Heuet, um irlandês chamado Frank Delaney. Ele produzia podcasts semanais com segmentos do Ulysses, de James Joyce. Sua voz, ritmo e humor sempre foram uma inspiração. Ele chegou a gravar integralmente os nove primeiros capítulos do livro, e avançava bem pelo décimo, quando a morte interrompeu seu projeto no último 22 de fevereiro. É pena]
[início 20/02/2017 - fim 21/02/2017]
"Em busca do tempo perdido - No caminho de Swann: Nomes de lugares (volume 6)", Marcel Proust, adaptado e desenhado por Stéphane Heuet, tradução de André Telles, Rio de Janeiro: editora Zahar, 1a. edição (2014), capa dura 21x28 cm, 52 págs. ISBN: 978-85-378-1304-1 [edição original: À la recherche du temps perdu (Du côté de chez Swann - Noms de pays: le nom) Guy Delcourt productions, Paris 2013]

quinta-feira, 2 de março de 2017

a gata, um homem e duas mulheres

Neste volume encontramos duas novelas de Jun'ichiro Tanizaki. Elas foram escritas há mais de oitenta anos e é difícil dizer qual das duas é melhor. Em "A gata, o homem e duas mulheres" acompanhamos como, utilizando-se de uma gata, uma mulher ardilosamente pretende recuperar o marido que a havia rejeitado. Aprendemos um bocado como eram, no Japão do início do século XX as convenções matrimoniais, dentre outros rituais familiares e amorosos. Ao começar a história encontramos Lily, a gata, vivendo com o indolente Shozo e sua segunda mulher, Fukuko, uma rica e mimada herdeira. A primeira mulher, Shinako, costureira diligente e trabalhadora, que nunca havia sido aceita completamente pela sogra, encontra uma forma de forçar o casal a desfazer-se de Lily, como subterfúgio para atrair de volta o ex-marido, mas logo veremos que os encantos da gata mostrar-se-ão mais perenes, fortes e significativos. Eu, um legítimo senhor de gatos, adorei a história, principalmente pela forma como  Tanizaki registra todo o encantamento que os felinos alcançam conjurar quando enfeitiçam os humanos. Ao mesmo tempo, a vívida descrição do dia a dia da sociedade japonesa como que provoca um feitiço adicional, que prende o leitor à narrativa. "O cortador de juncos", a segunda novela do volume, tem um desfecho menos realista que a primeira, mas é igualmente bem escrita e interessante. Acompanhamos duas narrativas que se superpõe e se complementam, paralelas e especulares ao mesmo tempo. Tanizaki evoca uma antiga história do Japão feudal, para contar duas outras, sobre o amor de um homem por duas mulheres, duas irmãs. O leitor é transportado para as coxias do palco de um teatro, e parece viver junto com os dois narradores das histórias os destinos cruzados dos protagonistas. Essa história é repleta de notas assinadas pelos tradutores, que dão conta das muitas referências poéticas e dramáticas incluídas na narrativa. Segundo elas Tanizaki era um estilista da língua japonesa. Que beleza de histórias. Que livro.
[início: 01/02/2017 - fim: 03/02/2017]
"A gata, um homem e duas mulheres; O cortador de juncos", Jun'ichiro Tanizaki, tradução de Andrei Cunha, Clicie Araujo, Lidia Ivasa, Maria Luísa Vanik Pinto e Tomoko Gaudioso, São Paulo: Estação Liberdade editora, 1a. edição (2016), brochura 14x20,5 cm., 190 págs., ISBN: 978-85-7448-276-7 [edição original: Neko to Shozo to Futari no Onna / 猫と庄造と二人の女, 1936; Ashikari / 蘆刈, 1932]